Coleta de dados, monitoramento de carga, análise biomecânica e programas de prevenção ganham importância diante da incidência elevada de lesões do ligamento cruzado anterior entre jogadoras. Pesquisadores defendem mais estudos específicos sobre o futebol feminino.
Lesões de joelho acendem alerta no futebol feminino
O crescimento do futebol feminino profissional está trazendo maior atenção para um problema que acompanha a modalidade há anos: a incidência elevada de lesões graves no joelho, principalmente a ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA).
Reportagem publicada pela Deutsche Welle nesta semana destaca que diversos estudos apontam que jogadoras podem apresentar um risco entre duas e oito vezes maior de ruptura do LCA em comparação com jogadores homens. O problema envolve uma combinação de fatores anatômicos, fisiológicos, esportivos e estruturais e ainda sofre com uma quantidade de pesquisas muito menor do que aquela disponível sobre atletas masculinos. (Deutsche Welle RSS)
O cenário está impulsionando o uso de dados e tecnologias de monitoramento como ferramentas complementares de prevenção. O objetivo não é prever com certeza qual atleta sofrerá uma lesão, mas identificar fatores de risco, administrar melhor a carga de trabalho e individualizar treinamento e recuperação.
Dados revelam diferença significativa
Um dos projetos que tenta preencher a lacuna de informações está sendo conduzido pelo Hospital Universitário de Regensburg, na Alemanha.
Desde a temporada 2023/2024, pesquisadores registram em um banco de dados as lesões ocorridas com jogadoras da primeira e da segunda divisões da Bundesliga feminina. Lesões sofridas por jogadores homens também são registradas para permitir comparações.
As primeiras análises indicaram um risco aproximadamente quatro vezes maior de lesão do LCA entre as mulheres. Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que ainda existe uma grande diferença entre o volume de estudos disponíveis sobre futebol masculino e feminino. (Deutsche Welle RSS)
Essa ausência histórica de dados específicos é justamente um dos pontos em que a tecnologia pode contribuir.
Monitoramento transforma atleta em fonte de dados
O futebol profissional moderno produz uma quantidade crescente de informações sobre os atletas.
Sistemas de posicionamento e dispositivos de monitoramento podem acompanhar aspectos como distância percorrida, intensidade dos deslocamentos, acelerações, desacelerações e exposição acumulada aos treinamentos e partidas.
Esses dados podem ser combinados com informações médicas e avaliações físicas para ajudar as comissões técnicas a entender como cada atleta está respondendo ao calendário.
O uso precisa ser cuidadoso: um indicador isolado não significa necessariamente que uma jogadora sofrerá uma lesão. O valor está principalmente na análise de tendências e na combinação de diferentes informações ao longo do tempo.
FIFPRO acompanha carga de trabalho das jogadoras
A carga competitiva tornou-se uma das principais preocupações do futebol feminino internacional.
Segundo dados citados pela Deutsche Welle, a FIFPRO analisou a carga de trabalho de quase 300 jogadoras profissionais durante a temporada 2024/2025. Pela primeira vez desde 2020/2021, 15 atletas disputaram pelo menos 50 partidas, enquanto os intervalos entre jogos ficaram menores em determinados períodos. (Deutsche Welle RSS)
O Project ACL, iniciativa voltada especificamente à investigação das lesões do ligamento cruzado anterior no futebol feminino, utiliza justamente ferramentas de acompanhamento de carga.
O projeto prevê rastreamento em tempo real da carga de trabalho, viagens e períodos críticos de exposição das jogadoras por meio da ferramenta de monitoramento da FIFPRO. (Leeds Beckett University)
Em abril de 2026, a iniciativa ganhou nova dimensão com a entrada da liga profissional feminina dos Estados Unidos, a NWSL, ampliando uma investigação que já envolvia o futebol feminino inglês. (The Guardian)
Olivia Moultrie reforça dimensão do problema
O assunto ganhou ainda mais repercussão nesta semana após uma nova lesão envolvendo uma atleta de destaque.
A meio-campista Olivia Moultrie, do Portland Thorns e da seleção feminina dos Estados Unidos, sofreu ruptura do LCA direito durante um treinamento e perderá o restante da temporada 2026 da NWSL. (Reuters)
Aos 20 anos, Moultrie havia registrado cinco gols e cinco assistências em 16 partidas na temporada. A lesão também a deixará fora do Campeonato Feminino da Concacaf e coloca em dúvida sua disponibilidade para a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será disputada no Brasil. (Reuters)
Casos como esse demonstram o impacto esportivo de uma ruptura do LCA. Uma única lesão pode retirar uma atleta de praticamente uma temporada inteira e afetar sua participação em grandes competições internacionais.
Por que as jogadoras apresentam maior risco?
Não existe uma única explicação.
Especialistas apontam uma combinação de anatomia, força muscular, características dos tecidos conjuntivos, biomecânica, fatores hormonais, condições de treinamento, calendário e infraestrutura.
A Deutsche Welle destaca, por exemplo, diferenças anatômicas que podem contribuir para maior vulnerabilidade do joelho. O papel do ciclo menstrual também é investigado, embora os pesquisadores ainda precisem de mais evidências para compreender precisamente sua relação com o risco de lesão. (Deutsche Welle RSS)
A FIFA está financiando pesquisas específicas sobre essa questão. Um projeto da Kingston University investiga justamente a possível relação entre ciclo menstrual e lesões do LCA no futebol feminino. (Kingston University London)
Isso reforça a necessidade de evitar explicações simplistas. O risco é multifatorial e exige análise individualizada.
Tecnologia pode ajudar na prevenção
Uma das possibilidades mais promissoras é combinar diferentes fontes de informação.
Dados de carga podem mostrar períodos de exposição elevada. Avaliações biomecânicas podem identificar padrões de movimento que precisam ser trabalhados. Informações médicas ajudam a considerar histórico de lesões e recuperação.
Ferramentas digitais também tornam possível acompanhar grandes grupos de atletas durante temporadas inteiras, criando bases de dados que posteriormente podem ser utilizadas em pesquisas.
A própria FIFA mantém projetos científicos relacionados à saúde das jogadoras. Entre as pesquisas listadas pela entidade em 2026 está o desenvolvimento de um conjunto de biomarcadores para identificar fadiga em futebolistas mulheres e contribuir para a prevenção de lesões. (Inside FIFA)
Prevenção não depende apenas de equipamentos
Apesar do avanço tecnológico, uma das ferramentas mais importantes continua sendo o treinamento preventivo.
Uma revisão científica publicada em 2026 aponta que programas de prevenção baseados em treinamento neuromuscular, incluindo protocolos derivados do FIFA 11+, podem reduzir a incidência de lesões do LCA em aproximadamente 40% a 45% quando implementados de maneira consistente. (PubMed)
O FIFA 11+ foi desenvolvido como programa de prevenção para jogadores a partir dos 14 anos e reúne exercícios destinados a melhorar força, equilíbrio, controle corporal e estabilidade. (Inside FIFA)
Nesse contexto, a tecnologia funciona melhor como parte de um sistema integrado: coleta informações, ajuda profissionais a acompanhar as atletas e fornece evidências para decisões sobre treinamento, descanso e recuperação.
Infraestrutura também faz diferença
A prevenção, entretanto, não depende apenas daquilo que acontece durante o treinamento.
As condições oferecidas às jogadoras ainda podem ser diferentes das disponíveis para os homens, inclusive em clubes de alto nível. A reportagem da Deutsche Welle destaca que diferenças de infraestrutura e suporte médico são consideradas parte do problema. (Deutsche Welle RSS)
Isso significa que comprar sensores ou instalar sistemas de análise não resolve a questão sozinho.
Os dados precisam ser interpretados por equipes multidisciplinares que incluam profissionais de medicina esportiva, fisioterapia, preparação física e ciência do esporte.
Além disso, é necessário garantir tempo adequado para recuperação e programas preventivos consistentes.
LCA gera uma das maiores cargas de afastamento
Embora não esteja entre as lesões mais frequentes em números absolutos, a ruptura do ligamento cruzado anterior produz um impacto particularmente elevado.
Uma revisão científica de 2026, baseada também em dados do estudo de lesões de clubes femininos de elite da UEFA, aponta que as lesões de LCA representaram apenas cerca de 2% das lesões registradas, mas tiveram a maior carga de afastamento, com mediana de aproximadamente 292 dias perdidos por ocorrência. (PubMed Central (PMC))
Isso ajuda a explicar por que prevenção e pesquisa ganharam prioridade.
Uma lesão pode significar cirurgia, meses de fisioterapia, recuperação física e psicológica e um processo gradual de retorno aos treinamentos e às partidas.
Mais dados podem mudar o futuro da modalidade
O avanço das pesquisas pode produzir um dos maiores benefícios tecnológicos para o futebol feminino: construir bases de dados realmente representativas das atletas.
Durante décadas, grande parte da ciência esportiva foi desenvolvida com informações predominantemente masculinas. Aplicar automaticamente essas conclusões às mulheres pode deixar diferenças relevantes sem resposta.
Projetos específicos para jogadoras permitem investigar como fatores biomecânicos, fisiológicos, hormonais, competitivos e estruturais interagem.
A tecnologia facilita esse processo ao permitir acompanhamento longitudinal de grandes grupos de atletas.
Futebol feminino entra na era da prevenção orientada por dados
O aumento da visibilidade das lesões de LCA está transformando a maneira como clubes, federações e pesquisadores abordam a saúde das jogadoras.
Sensores e monitoramento de carga não são soluções mágicas e tampouco conseguem prever individualmente uma ruptura. Mas podem fornecer informações importantes para identificar períodos de maior exigência, ajustar treinamentos e construir evidências específicas sobre o futebol feminino.
Ao mesmo tempo, programas neuromusculares de prevenção já apresentam evidências concretas de redução do risco quando aplicados de forma consistente. (PubMed)
A combinação entre ciência, tecnologia, infraestrutura médica e treinamento preventivo tende, portanto, a ganhar espaço na modalidade.
Com o futebol feminino crescendo e calendários cada vez mais exigentes, proteger a saúde das atletas passa a ser não apenas uma questão médica, mas também um dos principais desafios tecnológicos e esportivos da próxima fase de desenvolvimento da modalidade.