Cerca de 40% dos executivos não se sustentam nos primeiros 18 meses no cargo, segundo estimativas de mercado. Na perspectiva de Marcio Alaor de Araujo, executivo do mercado financeiro, o dado mostra que a carreira executiva exige competências diferentes das que levaram o profissional até ali. Bom desempenho técnico abre portas, mas não garante sucesso no novo patamar, que cobra habilidades menos visíveis no currículo.
Da execução para a visão do todo
A primeira mudança é de foco. Gestores costumam ser reconhecidos por entregar resultados na própria área, muitas vezes participando diretamente da execução. Na posição executiva, o valor está em enxergar como as áreas se conectam, antecipar efeitos de uma decisão sobre o restante da empresa e alocar recursos onde geram mais retorno para o conjunto.
Continuar resolvendo pessoalmente os problemas operacionais é uma armadilha comum para quem acaba de ser promovido. A sensação de controle é confortável, mas consome o tempo que deveria ser dedicado a estratégia, relacionamento e formação de equipe. Delegar com clareza, definindo resultados esperados e deixando o caminho para quem executa, torna-se condição para cumprir o novo papel.
Liderar por influência, e não só por autoridade
Quanto mais alto o cargo, maior a dependência de pessoas que não estão sob comando direto. Pares de outras áreas, conselheiros, acionistas e parceiros externos precisam ser convencidos, e não apenas informados. Pesquisas sobre transições executivas apontam dificuldades de relacionamento, influência e comunicação como causas frequentes de fracasso entre profissionais recém-chegados ao cargo.
Conforme explica Marcio Alaor de Araujo, construir alianças antes de precisar delas é parte do trabalho. Conhecer as prioridades de cada interlocutor, entender como as decisões são tomadas na prática e cultivar confiança ao longo do tempo facilitam a aprovação de projetos e a resolução de conflitos quando surgem divergências entre áreas com objetivos diferentes.
Conviver com a ambiguidade
Problemas que chegam à mesa de um executivo raramente têm resposta clara, ou teriam sido resolvidos em níveis anteriores. O cargo exige decidir com informações incompletas, equilibrar interesses conflitantes e aceitar que parte das escolhas não poderá ser validada antes de produzir resultados. Profissionais acostumados a respostas exatas costumam sentir a mudança com intensidade.

Ferramentas como cenários, critérios de decisão definidos previamente e conselheiros de confiança ajudam a reduzir a ansiedade diante da incerteza. Mais importante, porém, é desenvolver a disposição de assumir posições e corrigir o rumo quando necessário, sem paralisar a organização à espera de uma certeza que, em geral, nunca chega por completo.
Relacionamento com conselho e acionistas
Executivos passam a prestar contas a instâncias que avaliam a empresa por outro ângulo. Conselheiros e acionistas olham para retorno sobre o capital, riscos, governança e sustentação dos resultados no longo prazo. Apresentar números operacionais sem conectá-los a esses temas costuma gerar desconfiança, mesmo quando o desempenho é bom, e reduz o espaço do executivo nas decisões relevantes.
Como indica Marcio Alaor de Araujo, a transparência na comunicação com o conselho fortalece a posição do executivo. Antecipar problemas, em vez de esperar que sejam descobertos, e apresentar alternativas junto com os diagnósticos constroem credibilidade. Com o tempo, a relação deixa de ser apenas de prestação de contas e passa a incluir troca de experiências e apoio a decisões difíceis.
Carreira executiva exige formar equipe e se atualizar
Um executivo é avaliado também pela equipe que forma. Preparar sucessores, desenvolver lideranças intermediárias e criar condições para que a área funcione sem dependência excessiva de uma única pessoa são responsabilidades do cargo. Quem se torna indispensável na operação, curiosamente, tende a ter mais dificuldade de assumir desafios maiores, porque ninguém está pronto para substituí-lo.
Na interpretação de Marcio Alaor de Araujo, a carreira executiva exige ainda atualização constante. Mercados, tecnologias e modelos de gestão mudam em ritmo acelerado, e competências que garantiram uma promoção podem perder relevância em poucos anos. Buscar mentoria, formação continuada e exposição a experiências diferentes ajuda a sustentar a evolução profissional ao longo do tempo.