A Copa Loreta Valadares chega à sua quarta edição consolidada como o principal torneio de futebol feminino do estado da Bahia, reunindo 30 equipes distribuídas nas categorias sub-15, sub-17 e adulto. A abertura da competição, realizada no início de maio de 2026 no Estádio Vila Canária, em Salvador, entregou ao público partidas intensas, gols em abundância e, mais do que isso, um recado claro: o futebol feminino baiano não para de crescer. Neste artigo, exploramos o que aconteceu na primeira rodada, o significado histórico do torneio e por que essa competição importa muito além dos resultados em campo.
A primeira rodada da fase adulta já deixou claro que o nível técnico das equipes participantes evoluiu consideravelmente desde a estreia do torneio, em 2022. O Projeto Laura Rodrigues, por exemplo, aplicou uma goleada expressiva no Madre SSA, construindo vantagem ainda no primeiro tempo e mantendo o ritmo elevado na segunda etapa. Já o confronto entre Remo e Cajacity foi outro espetáculo à parte: o Remo abriu o placar com um gol de fora da área, mas cedeu a virada para o Cajacity na segunda metade do jogo. O resultado final de 2×1 para o Cajacity ilustra bem o equilíbrio crescente do futebol feminino na capital baiana.
No turno da tarde, o Real Itapuã/As Misturadas mostrou eficiência nas jogadas de bola parada para superar o Mancha Verde por 5×3, enquanto a Escola Baiana de Futebol venceu o Boca Jr pelo placar mínimo de 1×0, em uma partida marcada pelo domínio técnico que, por pouco, não se converteu em goleada. A diversidade de resultados reforça o caráter competitivo do torneio e a qualidade das participantes.
Não por acaso, o torneio carrega o nome de Loreta Valadares, uma mulher que dedicou parte de sua vida a lutar contra sistemas de opressão. Professora da Universidade Federal da Bahia, feminista e ativista política que chegou a ser exilada durante a ditadura militar, Loreta faleceu em 2004 sem ver o futebol feminino ganhar o prestígio que merece. Homenageá-la com uma competição que valoriza mulheres no esporte é uma escolha carregada de sentido político e cultural. O torneio funciona, portanto, como um ato contínuo de reparação histórica.
Organizado pela Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia (Sudesb), vinculada à Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre), e com parceria da Federação Bahiana de Futebol e da Federação das Associações de Bairros de Salvador, o evento vai além de uma simples competição esportiva. Ele funciona como uma plataforma de visibilidade para atletas que, em muitos casos, treinam sem estrutura profissional adequada, conciliam futebol com trabalho e enfrentam, diariamente, o preconceito disfarçado de tradição.
O secretário estadual responsável pela pasta destacou, durante a abertura, que o futebol feminino baiano cresce na mesma proporção em que políticas públicas são construídas para sustentá-lo. E há um contexto geopolítico esportivo importante a considerar: em 2027, o Brasil sediará a Copa do Mundo Feminina da FIFA, com Salvador entre as cidades-sede confirmadas. Isso transforma iniciativas como a Copa Loreta em um celeiro estratégico para identificar talentos, criar massa crítica de torcedoras e gerar uma cultura futebolística feminina enraizada no território baiano.
Para além dos números e das datas, o que este torneio evidencia é uma mudança de mentalidade em curso. O futebol feminino ainda convive com desigualdades brutais em relação ao masculino, seja no investimento, na cobertura midiática ou no reconhecimento salarial das atletas. Contudo, competições como a Copa Loreta Valadares funcionam como instrumentos de pressão sistêmica: cada jogo realizado, cada gol marcado e cada torcedor que comparece às arquibancadas contribui para normalizar a presença da mulher em um espaço que historicamente lhe foi negado.
O torneio segue até 14 de junho, com partidas espalhadas por diferentes regiões do estado, incluindo a Região Metropolitana de Salvador e o Recôncavo Baiano. Com categorias de base bem estruturadas, o evento também demonstra preocupação com a formação de novas geraçõeses de atletas, garantindo que o desenvolvimento do futebol feminino baiano não dependa apenas de uma geração, mas se renove continuamente.
A Copa Loreta Valadares não é apenas um torneio. É uma afirmação pública de que o futebol pertence a todos, e que a Bahia quer ser protagonista nessa transformação.
Autor: Diego Velázquez