Fusões e aquisições costumam receber meses de análise estratégica e negociação de preço, mas a estrutura de dívida da empresa comprada muitas vezes recebe uma revisão superficial, quase de última hora. O executivo com atuação em crédito estruturado e gestão corporativa, Pedro Daniel Magalhães, observa esse padrão se repetir mesmo em operações conduzidas por equipes experientes. O resultado é uma contradição recorrente: o comprador domina a valuation, a avaliação que define o preço da empresa-alvo, mas desconhece detalhes do endividamento que está prestes a herdar.
Esse descuido raramente aparece na assinatura do contrato. Ele emerge meses depois, quando cláusulas de dívida até então ignoradas começam a restringir decisões que a nova gestão julgava ter total liberdade para tomar. Entender por que isso acontece e como evitar exige olhar para o processo de due diligence, a investigação detalhada que antecede o fechamento do negócio, com mais rigor do que apenas somar ativos e passivos.
Por que a diligência financeira costuma parar no valuation?
Grande parte do esforço de due diligence em uma fusão se concentra em validar múltiplos, projeções de receita e sinergias esperadas entre as empresas. Esses números determinam o preço final e, por isso, recebem a atenção mais qualificada da equipe responsável pela transação.
A estrutura de dívida da empresa-alvo, por sua vez, costuma ser tratada como um item de conferência de rotina, verificado em valor total, mas raramente em detalhe contratual. Poucas equipes dedicam tempo equivalente a examinar cláusulas contratuais, garantias e prazos de vencimento, mesmo quando esses elementos afetam diretamente a viabilidade da operação após o fechamento.
O que passa despercebido na estrutura de dívida herdada?
Contratos de dívida corporativa costumam trazer cláusulas que restringem decisões da empresa, como limites de endividamento adicional, exigência de aprovação para vender ativos ou gatilhos de vencimento antecipado em caso de mudança de controle. Ignorar esses detalhes durante a negociação significa comprar mais do que o balanço mostra.

A mudança de controle, por si só, costuma acionar cláusulas que obrigam renegociação imediata com credores, algo que, na avaliação de Pedro Magalhães, raramente entra na planilha de valuation e pode consumir meses de trabalho jurídico logo após o fechamento do negócio.
Como esse descuido aparece depois da aquisição?
O problema geralmente se manifesta quando a nova gestão tenta executar o plano de integração e esbarra em restrições contratuais que não constavam do resumo executivo da due diligence. Uma linha de crédito que parecia disponível se revela condicionada, ou uma cláusula financeira limita a capacidade de tomar nova dívida para financiar a própria integração.
Esse tipo de surpresa corrói a confiança entre as equipes que conduziram a negociação e a diretoria que herda a execução, na leitura de Pedro Daniel Magalhães, além de adicionar custo e tempo a um processo que já era complexo.
O que muda quando a análise de crédito entra cedo no processo?
Incluir uma análise de crédito estruturada desde as primeiras fases da negociação, e não apenas na etapa final de fechamento, permite identificar cláusulas restritivas a tempo de negociar ajustes no preço ou nas condições da dívida antes da assinatura. Essa antecipação transforma um risco oculto em item de negociação.
Empresas assessoradas por especialistas em crédito estruturado, e não apenas por bancos de investimento focados em valuation, tendem a fechar negócios com menos surpresas contratuais no primeiro ano após a aquisição, avalia Pedro Magalhães.
Por que a dívida herdada merece o mesmo peso do preço na negociação?
Tratar a estrutura de dívida como parte central da negociação, e não como um anexo técnico do contrato, muda o resultado da transação a médio prazo. O preço pago reflete apenas metade da equação: a outra metade é o conjunto de obrigações que acompanha o negócio depois que ele é assinado.
À medida que o mercado de fusões e aquisições amadurece no Brasil, a análise de crédito tende a ganhar o mesmo status que hoje pertence ao valuation, reflete Pedro Daniel Magalhães, não como etapa concorrente, mas como parte inseparável de qualquer avaliação financeira séria.