Redes de apoio comunitário ganham espaço como parte essencial da assistência a vulneráveis, comenta Taiza Tosatt Eleoterio 

Marco Salvani
Marco Salvani
Taiza Tosatt Eleoterio 

O debate sobre apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade tem deixado de girar apenas em torno de serviços formais, como delegacias e centros de assistência social, para incluir também o papel de vizinhos, grupos comunitários e redes informais de ajuda mútua no dia a dia.

A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, com atuação voltada ao apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, observa que essa mudança de olhar reflete algo simples: a rede formal, sozinha, raramente dá conta de tudo o que uma mulher em crise precisa, e a rede comunitária costuma preencher exatamente as lacunas que ficam entre um atendimento institucional e outro. Nenhuma das duas substitui a outra; elas cumprem funções complementares.

Por que redes comunitárias vêm ganhando esse papel?

Serviços públicos de assistência costumam ter horário de funcionamento, protocolo de atendimento e prazos determinados, muitas vezes com filas de espera. A vida real de quem enfrenta uma crise não segue esse mesmo ritmo, muitas vezes explode num fim de semana ou numa madrugada, e é justamente nesse intervalo que vizinhos, grupos de igreja, associações de bairro e coletivos comunitários costumam entrar.

Esse tipo de apoio nem sempre é formalizado, mas cumpre uma função concreta: alguém que fica com as crianças por algumas horas, um grupo que reúne roupas e alimentos, uma vizinha que oferece companhia numa noite difícil. São gestos pequenos que, somados, sustentam boa parte da travessia entre um momento de crise e o acesso ao atendimento especializado, especialmente para quem não tem para onde ir de imediato.

Como essas redes funcionam na prática?

Taiza Tosatt Eleoterio destaca que as redes comunitárias funcionam melhor quando não tentam substituir o atendimento especializado, mas atuam como ponte até ele. Uma liderança comunitária que sabe para onde encaminhar uma mulher em risco vale tanto quanto qualquer campanha institucional de conscientização, porque costuma ser a primeira pessoa a quem a mulher recorre, antes mesmo de considerar procurar um serviço formal.

Isso inclui desde orientar sobre onde buscar atendimento psicológico gratuito até simplesmente acompanhar alguém até uma delegacia ou um posto de saúde, reduzindo a sensação de isolamento que costuma acompanhar esse tipo de situação. Muitas vezes, é esse acompanhamento presencial que faz a diferença entre alguém desistir no meio do caminho ou conseguir concluir o atendimento, sobretudo quando o próprio ato de pedir ajuda já exige um esforço emocional considerável.

O que muda quando rede formal e informal trabalham juntas?

Quando a rede comunitária e os serviços institucionais se comunicam bem, o encaminhamento tende a ser mais rápido e a mulher chega até o atendimento especializado com menos barreiras práticas pelo caminho, como transporte, cuidado com os filhos ou simplesmente informação sobre onde procurar ajuda. Sem essa comunicação, a mesma mulher pode passar por várias portas antes de encontrar a resposta certa.

Taiza Tosatt Eleoterio pondera que esse tipo de articulação, embora ainda desigual entre diferentes regiões, tende a se fortalecer à medida que mais organizações comunitárias passam a reconhecer o próprio papel dentro da rede de proteção, e não apenas como uma alternativa informal a ela, mas como parte constitutiva e reconhecida dessa rede.

Um movimento que tende a se fortalecer

A comunidade não substitui política pública, mas amplia o alcance dela até onde o Estado nem sempre chega sozinho. Por conta disso, Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que fortalecer essas redes, reconhecendo o valor de gestos que parecem pequenos, é parte do caminho para que menos mulheres enfrentem uma crise completamente sozinhas, e para que a rede de proteção deixe de depender apenas do que cabe dentro de um horário de expediente, passando a existir também nos intervalos entre um atendimento formal e outro.

Compartilhe esse artigo