Hotéis, resorts e gestão de resíduos: o que as certificações exigem e o que ainda falta avançar?

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Marcello José Abbud

Em um mercado cada vez mais orientado por critérios de sustentabilidade, Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, indica que a gestão de resíduos sólidos tornou-se um dos principais indicadores de desempenho ambiental avaliados pelas certificações internacionais do setor hoteleiro. Hotéis e resorts que buscam selos como Green Key, Rainforest Alliance e LEED precisam demonstrar sistemas estruturados de segregação, coleta diferenciada, redução de resíduos na origem e destinação ambientalmente adequada para cada fração gerada em suas operações. 

O caminho entre o cumprimento mínimo dos requisitos e a excelência ambiental real, porém, é mais longo do que os relatórios de sustentabilidade frequentemente sugerem. Aqui, você entenderá melhor o que essas certificações realmente exigem e onde o setor ainda precisa evoluir.

O perfil dos resíduos gerados em hotéis e resorts

Os empreendimentos hoteleiros de médio e grande porte geram resíduos com perfil de composição altamente variado, reflexo da diversidade de operações concentradas em um mesmo espaço físico. As áreas de alimentação e bebidas, que incluem restaurantes, bares, room service e banquetes, produzem volumes expressivos de resíduos orgânicos, embalagens de alimentos e bebidas, óleos de fritura e resíduos de descarte de alimentos vencidos ou não utilizados. Por outro lado, as áreas de hospedagem geram resíduos de higiene pessoal, embalagens de amenidades, papéis e plásticos de uso individual. Já as áreas de manutenção produzem resíduos de construção, óleos lubrificantes, lâmpadas e equipamentos eletroeletrônicos em fim de vida útil.

Conforme esclarece Marcello José Abbud, a complexidade da gestão de resíduos em empreendimentos hoteleiros é amplificada pela sazonalidade da ocupação, que cria variações significativas no volume gerado ao longo do ano, e pela diversidade de fornecedores e prestadores de serviços que atuam simultaneamente no empreendimento, cada um com suas próprias práticas de descarte. Em vista disso, harmonizar esses fluxos em um sistema integrado e rastreável de gestão de resíduos é um desafio de governança que os melhores empreendimentos do setor já aprenderam a enfrentar com metodologia e consistência.

O que as principais certificações exigem em termos de gestão de resíduos?

As certificações de sustentabilidade mais reconhecidas no setor hoteleiro incluem requisitos específicos e progressivos para a gestão de resíduos. O selo Green Key, amplamente adotado em destinos turísticos internacionais, exige a segregação de pelo menos quatro frações de resíduos, a destinação adequada de resíduos perigosos, a adoção de medidas de redução de resíduos na origem e o reporte anual de indicadores de geração e destinação. O LEED, por sua vez, pontua práticas de desvio de resíduos de aterros, uso de materiais reciclados na construção e operação e implementação de programas de compostagem para resíduos orgânicos.

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

Na interpretação de Marcello José Abbud, as certificações cumprem um papel importante de estabelecer pisos mínimos de desempenho ambiental e de criar incentivos de mercado para a melhoria contínua. No entanto, a distância entre o cumprimento formal dos requisitos e a excelência operacional real é frequentemente subestimada. Isso ocorre porque empreendimentos que estruturam seus sistemas de gestão de resíduos apenas para atender aos critérios de certificação tendem a apresentar desempenho inferior àqueles que incorporam a gestão ambiental como valor institucional e como critério de avaliação de desempenho de todas as equipes operacionais.

Boas práticas que vão além das certificações

Os empreendimentos hoteleiros com melhor desempenho ambiental no Brasil e no mundo compartilham práticas que superam os requisitos mínimos das certificações e refletem uma cultura organizacional orientada pela redução de impactos em todas as dimensões da operação. Em termos práticos, a eliminação progressiva de amenidades individuais em embalagens plásticas descartáveis, substituídas por dispensers recarregáveis de maior durabilidade, é uma das medidas com maior impacto sobre o volume de resíduos de plástico gerado nas áreas de hospedagem. Paralelamente, programas de doação de alimentos não servidos para bancos de alimentos e instituições sociais reduzem simultaneamente o desperdício alimentar e o volume de resíduos orgânicos destinados à compostagem ou ao aterro.

Marcello José Abbud analisa, de modo conclusivo, que o engajamento dos colaboradores é o fator mais determinante para o sucesso de qualquer sistema de gestão de resíduos em empreendimentos hoteleiros. Treinamentos periódicos, metas de desempenho ambiental integradas às avaliações das equipes e comunicação interna que valorize as conquistas ambientais do empreendimento são práticas que transformam a gestão de resíduos de uma obrigação regulatória em uma responsabilidade coletiva assumida por toda a organização.

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